domingo, 6 de novembro de 2011

Homem-Solidão



As desventuras  de um ex-Don Juan.


I

Por muito tempo era somente ele e a vodka.
Muitos dias haviam passado, ela embarcou numa viagem sem volta.
A embriaguez se tornou constante. Muito fácil anestesiar o corpo de um homem ferido.

O álcool fazia o efeito esperado e na poltrona ele adormecia...

Dia ensolarado, chegava à vila um rapaz de  estatura média, lábios carnudos, olhos doces e braços fortes. Era Júlio César, um andarilho que depois de partir corações e causar muita confusão estava decidido a "pendurar as chuteiras".
Com sua aparência agradável não fora difícil conseguir emprego e moradia.

Dois meses, esse foi o tempo que demorou até um olhar triste cruzar seu caminho e aflorar seu instinto caçador.

II

Sofie ficou cismada com o novo 'moço da farmácia'. Todos o chamavam de J.C , essas letras ficaram gravadas em sua mente. Ela sorria enquanto mexia seus negros cabelos perfeitamente encaracolados.

III

Que beleza imponente era aquela?- se indagou - Uma potranca pedindo para ser domada, pura tentação...
Horas mais tarde, depois do expediente, durante o banho lembrou daquele rosto maroto e sentiu uma felicidade estranha, até fez o sinal da cruz. Fumando um cigarro na janela, a imagem da boca delicada perguntando "tem aspirina?" parecia um convite.

IV

Um detalhe pode salvar o dia. Sofie  havia ido à farmácia comprar um comprimido na esperança de aliviar a dor que seu ex-amor ainda lhe causava, no entanto aquele jovem distinto tomou sua atenção e o desconforto sumiu. Dormiu como um anjo e amanheceu como nunca.


Campainha toca:

- Quem é?

- Da farmácia senhora.

Farmácia?O que será?- foi abrir rápido e "É ele!".

-Desculpe incomodar - disse em tom profissional - Mas a farmácia Andrade está cadastrando os clientes para um serviço de fidelidade.

- Certo, mas quem forneceu meu endereço? - Disse séria desconfiando da veracidade da história.

J.C ficou pálido por um instante, mas respondeu seguramente: - O senhor Jorge Andrade, que lhe conhece de longa data me enviou, algum problema?

- Não, não. Cidade pequena é assim mesmo. Como faço para participar? - Falou em tom irônico...

Ele fez as perguntas que julgava necessárias para saber de detalhes sobre seu futuro troféu. Ao fim do interrogatório, o último ponto: "telefone?", a garota disse o numero sem a menor maldade.

“Manhã produtiva!!!” - Disse ele em pensamento.

V

Quando fechou a porta, estava num misto de medo e euforia.
"Sofie não é nada disso que você está pensando, desencana!", disse ela tentando espantar esse tipo de bobagem, pois o fantasma do pequeno homem ainda habitava seu intimo.
Longe dali apenas uma quadra, estava ele estudando as respostas dela e pensando no próximo passo.
- Não existe cartão-fidelidade, e agora?

VI

 Era inevitável, ele avistava sua bela todos os dias, ela passava apressada com uma pilha de livros e ele sempre com um riso malicioso no rosto a cumprimentava.

Chegou a hora bote final, seu cheiro preencheu o estabelecimento." O que vou falar?" pensou ele, mas logo foi interrompido:
- E o cartão-fidelidade?Quero meus descontos!!!
- É uma pena senhorita, mas pelos altos custos, o projeto não vai poder ser implantado.
- Aaah!
A conversa foi interrompida por uma voz que dizia:

"Venha aproveitar a grande inauguração da sorveteria REI DO SABOR! Os dez primeiros clientes a comparecer na loja irão desfrutar do sabor da fruta inteiramente grátis!"

Com um olhar sugestivo disse: Vamos?
Sofie nem respondeu, já estava em direção a porta. Havia muitos carros e eles demoraram a atravessar, quando conseguiram a sorveteria já estava lotada.

- Droga! Você é muito lerdo! Falou com um sorriso infantil.
- Mas não faz mal, eu lhe recompenso. Aceita? No fim da tarde?
- Huuum! 'tá bom', a gente se vê mais tarde.

"Hoje vai ter rapaz, você é um gênio!!!"

VII

Tudo ocorreu como o combinado. Sorvete bom, conversa agradável. Foram horas falando bobagem, agiam como velhos amigos.
Após algumas conversas, se tornaram acessório um do outro, passavam a maior parte do tempo juntos.

Até aquela noite, só havia insinuações. Surgiu um olhar agressivo, sedutor e o primeiro beijo aconteceu: macio, molhado com gosto de 'quero mais'.
Dai pra frente a fogueira se acendeu. Um amor ardente que chegava a ser selvagem. Lá estava a garota que amava demais entregando-se novamente.

VIII

"Don Juan" gostava de sua madame, mas estava indeciso, com medo de se prender e acabar com seu histórico de aventuras.
Ele optou por continuar a brincar e procurou por outros corpos, mesmo com sofie na cabeça. Achava muito estranho esse pudor, por que se preocupar com ela?
O trágico é que nem ele sabia, mas amava aquela menina.
Sua reação foi estúpida, Sofie percebeu a mudança e se entristeceu, pois, não queria tudo aquilo acontecendo de novo.

IX

Tudo ficou negro.
Sofie saia chorando. "Ninguém te ama como eu!" - J.C falou, talvez ela nem tenha escutado.
Uma longa procura até encontrar pequena pegadas e perceber o que tinha feito.
O mundo começou a desabar, gemidos de horror...


Homem-Solidão acordava de mais uma noite perturbada pelas lembranças de sua inconsequência. Seu amor estava despedaçado literalmente e a culpa era somente dele.

O amor é uma dádiva, não o desperdice. Não se pode medir o quanto se é amado...
J.C


( Talvez seja necessário ler "Madame tristeza" para compreender a lição de J.C. Estão aqui os links das duas partes do começo da história: 1. http://dinaleite.blogspot.com/2010/10/madame-tristeza_09.html e 2.http://dinaleite.blogspot.com/2011/01/madame-tristeza-continuacao.html )

3 comentários:

José María Souza Costa disse...

Também, entendo, que o Amor, é uma dádiva
Olá,
Estou lhe convidando a visitar, o meu. Bem simples, por sinal, e se possivel seguirmos juntos por eles. Estarei grato esperando por voce, lá
Um abraço.

José María Souza Costa disse...

Estou cá,seguindo o seu blogue.
Grato, pelo comentário postado lá no meu.
Felicidades

A. Furtado disse...

Muito obrigada!

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