terça-feira, 9 de novembro de 2010

Bilhete


Não te chamarei "meu ", pois sei bem que nunca o foste; bem punida estou por ter permitido à minha alma que se deleitasse nesse pensamento; e, contudo, chamo-te meu; meu sedu­tor, meu trapaceador, meu inimigo, meu assassino, autor da minha desventura, túmulo da minha alegria, abismo da minha infelici­dade. Chamo-te meu e a mim chamo tua, e tal como outrora te acariciava ouvi-lo, a ti que orgulhosamente te inclinaste para me adorar, deve agora soar como uma maldição lançada sobre ti, uma maldição para toda a eternidade. Não te alegres com o pensamento de ter eu a intenção de te perseguir, de me armar com um punhal para excitar a tua troça!, mas, para onde quer que fujas, ainda assim sou tua; vai até o fim do mundo, ainda assim serei tua; dá o teu amor a centenas de outras, ainda assim sou tua; sim, mesmo à hora da morte serei ainda tua. A própria linguagem de que me sirvo contra ti deverá provar-te que sou tua. Tiveste a ousadia de iludir um ser tão completamente que tudo te tornaste para esse ser,para mim, e que terei o mais infinito prazer em me tomar tua escravapertenço-te, sou tua, tua maldição.

(Diário de um Sedutor)